Foi o frio que lhe encarnou a espinha
percorreu os sentidos de fio a pavio até ficar de coração vazio,
como aquele monstro, que sorria.
A língua frutada de sabor a madeira, ansiosa por ser tentada,
deu de si ao escuro e fez-se noite baldia
enterrada no olhar de um estranho, ali
no fundo das pedras encarnadas.
Caminhos...
Jamais percorridos por lágrimas de mãos dadas,
ao som da chuva e venenos derramados.
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quinta-feira, junho 26, 2008
quinta-feira, junho 19, 2008
Alice, a pintora.

Alice morava na aldeia de Couce, longínqua, junto ao rio, perto da natureza, com poucas casas habitadas. Vivia na mais pura da paz. As brincadeiras de criança com o seu primo André, preenchiam-lhe os dias. O acompanhamento escolar era quase nulo, cresceram no campo, juntos e analfabetos. Aquilo que os unia ultrapassava a cumplicidade. Encararam como um amor, terno e inocente, aquele amor, o mais apetecido e por isso, olhado de lado por todos. Todos comentavam, mas só agiram quando a mais bela moça da terra, engravidou. Nesse dia, foi apedrejada por toda a aldeia.
- Ela tinha futuro, era boa rapariga, é uma pena. (cochichava a dona Antónia com a dona Lucinda atrás da igreja).
Nessa mesma noite, depois de Alice ouvir de seu pai que não era mais sua filha e de André não lhe ter dado a mão, fugiu.
Sem saber ler nem escrever, a forma que encontrou para sobreviver foi mostrar a sua arte na rua. Começou por pintar com carvão e a vender, numa cidade fria, que não era a dela. Desenhava essencialmente o paraíso e a visão pura da vida. Alice só tinha conhecido a liberdade, o amor e mais tarde a injustiça e a traição.
Para terem uma ideia, algumas obras dela, fizeram parte de uma exposição chamada: “Paraíso manchado”. Foi descoberta pelo dono de uma galeria, jovem, com boa aparência, que se apaixonou pela arte e mais tarde por ela.
A mulher amarga que Alice se tornou, era fruto da revolta por não a terem deixado amar. Amar a vida, o André e o bebé que nunca chegou a nascer.
Agarrou-se à vontade de morrer no dia em que achou aquela aliança na rua, servia-lhe na perfeição, sentou-se no banco de jardim da praça e enquanto fumava mais um cigarro, imaginou-se de branco, na igreja, rodeada de flores e com um sorriso que já não reconhecia como seu.
Foi a sua última pintura, aos 63 anos, com uma doença terminal diagnosticada e com as mãos trémulas, cobertas de tinta, desenhou uma mulher vestida de noiva, manchada de sangue no altar, sozinha. Momentos antes de falecer.
- Ela tinha futuro, era boa rapariga, é uma pena. (cochichava a dona Antónia com a dona Lucinda atrás da igreja).
Nessa mesma noite, depois de Alice ouvir de seu pai que não era mais sua filha e de André não lhe ter dado a mão, fugiu.
Sem saber ler nem escrever, a forma que encontrou para sobreviver foi mostrar a sua arte na rua. Começou por pintar com carvão e a vender, numa cidade fria, que não era a dela. Desenhava essencialmente o paraíso e a visão pura da vida. Alice só tinha conhecido a liberdade, o amor e mais tarde a injustiça e a traição.
Para terem uma ideia, algumas obras dela, fizeram parte de uma exposição chamada: “Paraíso manchado”. Foi descoberta pelo dono de uma galeria, jovem, com boa aparência, que se apaixonou pela arte e mais tarde por ela.
A mulher amarga que Alice se tornou, era fruto da revolta por não a terem deixado amar. Amar a vida, o André e o bebé que nunca chegou a nascer.
Agarrou-se à vontade de morrer no dia em que achou aquela aliança na rua, servia-lhe na perfeição, sentou-se no banco de jardim da praça e enquanto fumava mais um cigarro, imaginou-se de branco, na igreja, rodeada de flores e com um sorriso que já não reconhecia como seu.
Foi a sua última pintura, aos 63 anos, com uma doença terminal diagnosticada e com as mãos trémulas, cobertas de tinta, desenhou uma mulher vestida de noiva, manchada de sangue no altar, sozinha. Momentos antes de falecer.
(texto construido a partir da imagem)
sexta-feira, maio 02, 2008
Brevemente: O sabor do saber.

Sinopse:
Os rebuçados da Régua são o elo de ligação entre uma mulher de meia idade e o antigo aluno da escola primária. A estação de S.Bento faz de cenário a uma história de amor diferente e muito especial, que dura por muitos e longos anos, até descobrirem a mentira que une verdadeiramente, mãe e filho.
sexta-feira, abril 04, 2008
Laura lia, Laura corria, gemia a cada latir que ouvia!
Tresloucada e vadia, uma coisa ela sabia, era só um pequeno detalhe da sua vida, que toda a diferença faria.
Naquela noite, a casa estava mais que sombria, quando num repente, de trás do frigorifico surge o Tomás, audaz e esguio que logo logo fez da varanda seu ninho e da cauda dela, bolotas para um esquilo. Envolveram-se em tal zas tras paz, que até os cães se babaram de alívio.
Já os galos cantavam, quando Laura, ainda cheia de folia, sentiu a ausência do pedaço de coração que lhe fugia.
Ela olhou em volta e ao lado da terrina do leite, viu um telegrama. Ainda tremeu, chorou, mas pegou nele cheia de firmeza e correu para o parapeito.
A cor do pelo estava associada ao agoiro, o que lhe dava um hábito fácil de lidar com finais fatídicos. Ela já esperava tudo, mas quando nada pior podia acontecer o Tomás escreve em letras garrafais:
“ERA DE NOITE, MAS EU SEMPRE FUI UM RATO! Desculpa...”
Não sei se foi logo de imediato, mas Laura sorriu, abriu a janela e miou, miou tanto, um miar primaveril que enlouqueceu os cães com tal folia, que saltaram a cerca e correram. Correram até ela e gritaram: NÓS SEMPRE FOMOS CÃES E AGORA? Esperamos pela noite?
Tresloucada e vadia, uma coisa ela sabia, era só um pequeno detalhe da sua vida, que toda a diferença faria.
Naquela noite, a casa estava mais que sombria, quando num repente, de trás do frigorifico surge o Tomás, audaz e esguio que logo logo fez da varanda seu ninho e da cauda dela, bolotas para um esquilo. Envolveram-se em tal zas tras paz, que até os cães se babaram de alívio.
Já os galos cantavam, quando Laura, ainda cheia de folia, sentiu a ausência do pedaço de coração que lhe fugia.
Ela olhou em volta e ao lado da terrina do leite, viu um telegrama. Ainda tremeu, chorou, mas pegou nele cheia de firmeza e correu para o parapeito.
A cor do pelo estava associada ao agoiro, o que lhe dava um hábito fácil de lidar com finais fatídicos. Ela já esperava tudo, mas quando nada pior podia acontecer o Tomás escreve em letras garrafais:
“ERA DE NOITE, MAS EU SEMPRE FUI UM RATO! Desculpa...”
Não sei se foi logo de imediato, mas Laura sorriu, abriu a janela e miou, miou tanto, um miar primaveril que enlouqueceu os cães com tal folia, que saltaram a cerca e correram. Correram até ela e gritaram: NÓS SEMPRE FOMOS CÃES E AGORA? Esperamos pela noite?
quinta-feira, março 06, 2008
A tarefa desta semana era escrever de forma completely different, saiu isto:
-Estou presa, alguém me acuda!!
-Se eu fosse a ti estava caladinha, quietinha e sem chamar muito à atenção.
-Sabes que eu não sou assim filho. Gosto de estar sempre no meu melhor.
-Pois minha querida, mas mesmo eu, que sou o bem essencial, estou aqui à mão de semear de qualquer boca que me queira trincar, é a minha sina. De que me posso eu queixar?
-Queixa-te da clausura, da falta de ar, livra-te desse plástico maldito. Faz entoar o sino, ou arrota, sei lá! Ele que perca a vontade de nos embrulhar. Só sei que estou farta, sou verde e quero respirar!!
O pão fartou-se de ouvir a alface e tomou uma atitude. Com a ajuda do ovo mais que mexido, do fiambre ranhoso, da alface parva, conseguiram rebentar o plástico.
-Estamos livres!!! (gritava a alface), respiramos ar dos humanos. iupiiii!!
-Dizes isso porque não és pão, vou ficar duro não tarda nada, mas era isto ou morrer louco contigo a chatear!!
A alface estava mais feliz do que nunca, mais verde que qualquer garrafa de JB. Já era final de tarde e ninguém tinha tido vontade de os degustar.
-Estás a ver pão?! Não valeu a pena?!
-Se não te calas eu aperto-te. Deixa-me dormir, já não chega este tremor de terra ensurdecedor?!
O Ricardo chegou, olhou para as sandes e apercebeu-se que o plástico daquela estava solto. Desmontou-a, deu o ovo ao gato, fez torradas com o pão, o fiambre esfumaçou-se na boca dele e a alface? Bem, essa provou que ser chata compensa e foi dar um passeio pela invicta no camião do lixo!
-Se eu fosse a ti estava caladinha, quietinha e sem chamar muito à atenção.
-Sabes que eu não sou assim filho. Gosto de estar sempre no meu melhor.
-Pois minha querida, mas mesmo eu, que sou o bem essencial, estou aqui à mão de semear de qualquer boca que me queira trincar, é a minha sina. De que me posso eu queixar?
-Queixa-te da clausura, da falta de ar, livra-te desse plástico maldito. Faz entoar o sino, ou arrota, sei lá! Ele que perca a vontade de nos embrulhar. Só sei que estou farta, sou verde e quero respirar!!
O pão fartou-se de ouvir a alface e tomou uma atitude. Com a ajuda do ovo mais que mexido, do fiambre ranhoso, da alface parva, conseguiram rebentar o plástico.
-Estamos livres!!! (gritava a alface), respiramos ar dos humanos. iupiiii!!
-Dizes isso porque não és pão, vou ficar duro não tarda nada, mas era isto ou morrer louco contigo a chatear!!
A alface estava mais feliz do que nunca, mais verde que qualquer garrafa de JB. Já era final de tarde e ninguém tinha tido vontade de os degustar.
-Estás a ver pão?! Não valeu a pena?!
-Se não te calas eu aperto-te. Deixa-me dormir, já não chega este tremor de terra ensurdecedor?!
O Ricardo chegou, olhou para as sandes e apercebeu-se que o plástico daquela estava solto. Desmontou-a, deu o ovo ao gato, fez torradas com o pão, o fiambre esfumaçou-se na boca dele e a alface? Bem, essa provou que ser chata compensa e foi dar um passeio pela invicta no camião do lixo!
terça-feira, fevereiro 19, 2008
O barco
Os olhos tinham a transparência do verde, molhado, estava perdido, deslocado. O céu, já não tinha cor nem nuvem que o visitasse, as lágrimas escorriam pela madeira e o pensamento estava no imenso azul que o faria sobreviver. Queria gritar, ficar livre, mas as casas ainda estavam longe, não tinha força, nem confiança para correr em direcção a elas.
Baixou os braços e ficou ali, deitado a viver a vida de um passado.
Baixou os braços e ficou ali, deitado a viver a vida de um passado.
quinta-feira, fevereiro 07, 2008
1st class
Para primeira aula, o neurónio escolheu o relógio.
O objecto que marca o tempo, que dá vontade de atirar contra a parede a cada hora boa que passa, ou a cada minuto parvo, que teima em não passar.
Limitou-se então ao relógio e ao vermelho, aquele vermelho que o faz corar quando sente que as palvras vão saltar a cerca. E espirrou...
Espirrou vezes sem conta, limpou o salão e deliciou-se a ouvir as palavras da experiência, que as calças amarelas demonstravam ter.
...mais novidades devem vir por aí, a cada quarta que passe!
O objecto que marca o tempo, que dá vontade de atirar contra a parede a cada hora boa que passa, ou a cada minuto parvo, que teima em não passar.
Limitou-se então ao relógio e ao vermelho, aquele vermelho que o faz corar quando sente que as palvras vão saltar a cerca. E espirrou...
Espirrou vezes sem conta, limpou o salão e deliciou-se a ouvir as palavras da experiência, que as calças amarelas demonstravam ter.
...mais novidades devem vir por aí, a cada quarta que passe!
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